Por Manuel Carvalho
A solidariedade de milhares de portugueses permitiu a acumulação de dez milhões de euros para minimizar os danos materiais dos incêndios do Verão passado. Mas, um ano depois da tragédia, 32 por cento desse montante continua parado nos cofres de instituições de solidariedade social ou em contas bancárias. A vontade de ajudar da comunidade não contaria certamente com tantas barragens de burocracia, de inércia e de desleixo por parte das autoridades a quem competia fazer chegar as contribuições aos que delas necessitam. Como nos incêndios, o exemplo serve para provar as consequências que a desorganização tem no actual estado do país. E para nos lembrar que, em muitos casos, não é dinheiro nem ideias que faltam ao país, mas vontade, rasgo e capacidade de romper com as teias burocráticas e administrativas que asfixiam a capacidade de iniciativa dos portugueses.
Os trabalhadores emigrados na Alemanha ou na Suécia são apreciados pelas empresas pela sua produtividade, como aliás acontece em alguns sectores de ponta em Portugal, com destaque para o exemplo da Autoeuropa; os gastos públicos na educação ou na saúde situam-se na média-padrão do mundo desenvolvido, mas os seus resultados estão longe de se lhes aproximar; há leis e decretos-leis que, desde a aprovação à regulamentação e entrada em vigor, se arrastam nos gabinetes por longos e penosos anos - como é o tristemente célebre caso da Lei de Bases da Floresta. Porquê? Pondo de lado a acusação fácil do laxismo latino, segundo o qual no país não se gosta de trabalhar, o que resta é o problema do caos administrativo, que mata devagar a ambição e o rasgo de milhares de bons funcionários públicos, professores ou médicos, que permite aos dirigentes sacudir responsabilidades pelo recurso à norma, ao papel ou à hierarquia, e pela tradição secular de um Estado que adora papéis e se dá mal com a velocidade da vida moderna.
Há, como em tudo, excepções. A da Câmara da Chamusca, que em Fevereiro deste ano já tinha 12 casas construídas para as vítimas dos incêndios, é, a esse nível, exemplar. E, olhando para a capacidade de execução de projectos que o país tem manifestado, podemos até concluir que uma taxa de cumprimento de 68 por cento não é assim tão má. A questão que se impõe é, no entanto, saber por que é que não se faz tudo o que se planeia do princípio ao fim, sem atrasos, sem equívocos nem verbas sobrantes.
Cabe ainda neste processo destacar a generosidade dos portugueses e de algumas instituições privadas. Os incêndios do ano passado foram, de facto, um dos piores dramas a que o país assistiu nas últimas décadas. Face à intensidade do choque, milhares de pessoas provaram que, apesar da ópera bufa em que boa parte da vida pública nacional está transformada, ainda se dispõem a actos de cidadania desinteressados. O seu espírito de solidariedade não merecia o que se está a passar.
In Público







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Posted by: AwaidaPlada | January 19, 2008 at 02:51 AM